ARTIGOMobilidade do crânio: você considera nos seus tratamentos?
10/07/2026
Um tópico bastante questionado e polêmico é se existe, ou não, uma mobilidade do crânio, um movimento entre as suas estruturas. Porém, é inegável a importância do crânio na fisiologia, principalmente pela presença do cérebro.
Este artigo vai lhe apresentar algumas informações para que você possa refletir sobre a possível mobilidade craniana e sua importância clínica, e entender como isso pode estar influenciando os problemas dos seus pacientes.
O crânio tem movimento?
Se você trabalha com Osteopatia, ou Quiropraxia, ou com abordagens como a Terapia CranioSacral e outras que possuem técnicas para intervir na suposta mobilidade craniana esse tópico não é novidade para você.
Mas caso você não tenha estudado essas linhas terapêuticas pode ser um pouco estranho falar em mobilidade do crânio. Vamos analisar alguns tópicos sobre os quais essa hipótese está baseada.
Embriologia
Embriologicamente o crânio ósseo humano se desenvolve a partir de uma parte cartilaginosa (que vai formar a base do crânio) e uma parte membranosa (que vai formar a abóbada craniana). A partir dessas estruturas inicia um processo de ossificação, a partir dos centros de ossificação, que vai acabar por formar os ossos cranianos. Porém, ao nascimento estes ossos ainda não estão completamente formados, ainda há áreas membranosas entre os ossos, na abóbada craniana, que são chamadas fontanelas.
Ao nascimento, portanto, o crânio é bastante maleável, em especial pela presença das fontanelas.
Desenvolvimento
À medida que o bebê vai se desenvolvendo a ossificação do crânio evolui, e as fontanelas devem desaparecer por volta dos 24 meses de idade.
Nesse ponto os ossos cranianos já devem estar totalmente ossificados. Porém eles não se fundem, permanecem separados e entre eles há uma união chamada sutura.
Muitos anatomistas consideram que, em torno dos 20 anos de idade, as suturas estão completamente formadas, e a partir daí não há mais mobilidade entre os ossos do crânio.
William G. Sutherland
O célebre osteopata William G. Sutherland baseou-se no princípio fundamental da Osteopatia que diz que estrutura e função estão interligadas para levantar o seguinte questionamento: se não há movimento entre os ossos cranianos, para quê servem as suturas? Por quê haveria uma forma sem função? Afinal, se os ossos cranianos não apresentam movimento entre si, o melhor não seria que os ossos fossem totalmente unidos, calcificados? Estudos histológicos mostram que mesmo em pessoas idosas não há uma ossificação total das suturas, permanecendo um espaço microscópico entre os ossos cranianos.
A partir da sua premissa, William G. Sutherland desenvolveu os conceitos da Osteopatia Crânio Sacral, na qual considera haver mobilidade entre os ossos cranianos, e criou técnicas para avaliar e tratar tal mobilidade.
Inúmeros osteopatas, e também outros profissionais, afirmam sentir o movimento dos ossos cranianos em seus pacientes, e asseguram que, ao avaliá-lo e corrigi-lo, obtém melhora dos quadros clínicos.
Mobilidade ou complacência
Há vários estudos publicados que afirmam ter detectado um movimento muito pequeno entre os ossos cranianos, assim como há outros estudos que afirmam não ter detectado movimento algum.
Não há, portanto, até o momento, um consenso sobre a existência ou não de tal movimento.
Mas é sabido que o crânio não é uma estrutura rígida. Obviamente, o seu conteúdo: cérebro, meninges, vasos, etc., não são estruturas rígidas, mas tampouco o crânio ósseo é rígido.
O osso vivo é plástico, pode se deformar, e portanto confere maleabilidade ao crânio.
Além disso, embora seja discutível a existência de movimento nas suturas cranianas, é fácil entender que uma estrutura que apresenta tal separação entre os ossos, em vez de uma placa óssea única, fornece uma camada extra de elasticidade à estrutura.
Pode ser controverso se há, ou não, movimento entre os ossos cranianos, mas não há dúvida de que o crânio não é uma estrutura completamente rígida, ele apresenta uma complacência, uma maleabilidade. Por exemplo, no sentido transversal o crânio é capaz de variar o seu diâmetro em até 1-2 cm quando comprimido.
Variações na pressão e no volume
Há hipóteses baseadas na flutuação do volume do líquido céfalo-raquidiano que propõe que esse seja o motor que gera os movimentos percebidos pelos osteopatas e outros profissionais que trabalham com abordagens cranianas e crânio-sacrais. Há também algumas outras hipóteses para explicar o mecanismo de geração do movimento, porém nenhuma delas apresentou evidências suficientes para embasar sua existência, até o momento.
Por outro lado, é fácil entender que o crânio não é estático, muitos movimentos, especialmente de fluídos, ocorrem dentro do crânio o tempo todo. Basta lembrar que o sangue arterial adentra o crânio constantemente, assim como o sangue venoso flui para fora do crânio.
Esse movimento dos fluídos é suficiente para entendermos que, constantemente, ocorrem variações de pressão no interior do crânio. E para que não haja prejuízo das estruturas internas é necessária uma complacência das estruturas rígidas, para adaptar essas variações da pressão.
Ossos, suturas e meninges
Além dos ossos cranianos, e das suturas, sobre as quais já comentamos, o “arcabouço” craniano, o ambiente onde está alojado o cérebro, é formado também por membranas de tecido conectivo, as meninges. Das três meninges, pia-máter, aracnóide e dura-máter, a última é a mais externa e que tem maior importância mecânica, por ser uma membrana de tecido conectivo denso.
A maleabilidade do crânio depende da elasticidade desses três tipos de estrutura:
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ossos;
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suturas;
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meninges (especialmente a dura-máter).
Em qualquer delas podem haver alterações das propriedades mecânicas:
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os ossos podem perder sua maleabilidade natural, tornando-se mais rígidos;
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as suturas podem diminuir a sua complacência, contribuindo para uma menor maleabilidade global do crânio;
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a dura-máter pode perder a sua elasticidade, perdendo a capacidade de se adaptar às variações de pressão e diâmetro do crânio, interferindo em sua complacência global.
Variação de pressão e forames
A diminuição da elasticidade global do crânio diminui sua capacidade de adaptação a forças internas e externas, como aquelas geradas pela pressão dos líquidos, ou por forças externas traumáticas. Isso tem grande repercussão sobre as condições das estruturas internas, e pode estar associado a um grande número de problemas.
Pensando apenas nas consequências da falta de adaptação às variações de pressão, é facil entender que haverá consequência imediata sobre a circulação de fluídos, além de outras.
Outra característica do crânio, além das suas propriedades elásticas, permite se adaptar a um aumento de pressão indesejada: os forames. O crânio possui diversas aberturas, chamadas forames, que possibilitam uma saída para a pressão aumentada no interior dele. E os forames, são também a via de passagem de diversas estruturas vásculo-nervosas.
A presença dos forames é extremamente útil para ajudar a dissipar a pressão indesejada, associada à uma diminuição da complacência global do crânio. Porém, se esse mecanismo torna-se crônico, com os forames sendo usados continuamente para aliviar a pressão interna do crânio, haverá um aumento constante na pressão intraforaminal, o que vai repercutir sobre as estruturas que passam através dos forames.
Consequências clínicas
Considerando que o crânio aloja o cérebro, o centro organizador de toda a fisiologia, a perda da capacidade de adaptação mecânica (complacência) do crânio pode contribuir para incontáveis alterações e disfunções.
Pensando apenas nas consequências sobre as estruturas que atravessam os forames, já teríamos inúmeros quadros sintomáticos e disfuncionais que prováveis.
Um exemplo é o nervo vago, que sai do crânio pelo forame jugular, e leva inervação parassimpática para a maioria das vísceras abdominais, além de outras estruturas. Um aumento da pressão intraforaminal com prejuízo para a função deste nervo pode levar a vários quadros disfuncionais, especialmente a nível das vísceras abdominais. Problemas digestivos, de toda a ordem, estão entre os mais comuns.
Outro exemplo é o nervo acessório, um nervo craniano responsável pela inervação do músculo trapézio. O estresse sobre o nervo acessório pode levar a uma hipertonia do músculo trapézio, e isso pode contribuir para quadros de cervicalgia, cefaléias tensionais, alterações posturais, diminuição da mobilidade cervical, e vários outros.
O nervo óptico é outro nervo craniano, que parte do cérebro e atravessa seu forame para chegar aos globos oculares e executar suas funções. As próprias órbitas são estruturas capazes de dissipar a pressão intracraniana aumentada. Portanto, tanto o nervo óptico como os próprios globos oculares podem ser afetados pela perda da complacência das estruturas cranianas. E a consequência óbvia é a alteração das funções visuais, bem como da pressão intraocular, e outras.
Poderíamos citar todos os nervos cranianos e as possíveis consequências clínicas que podem resultar do aumento da pressão intraforaminal em cada um deles, mas é suficiente entender que, devido às inúmeras funções associadas aos nervos cranianos, esse mecanismo fisiopatológico pode estar envolvido em diversos quadros clínicos.
Mesmo que a existência de uma mobilidade entre os ossos cranianos ainda seja objeto de grande discussão e controvérsia, as propriedades elásticas do crânio são bem conhecidas. Assim como em outras estruturas do corpo, a perda das propriedades mecânicas das estruturas (ossos, suturas e meninges) que conferem essa elasticidade ao crânio diminui a sua capacidade adaptativa.
Como vimos, várias consequências clínicas podem seguir essas alterações, e muitos pacientes são beneficiados com uma recuperação da complacência global do crânio, por meio do tratamento manual das estruturas que formam o seu arcabouço.
Para uma abordagem global, integrativa e que investigue as causas dos problemas clínicos, é fundamental avaliar a complacência (ou mobilidade, se preferir) do crânio e tratar a perda das propriedades mecânicas de suas estruturas, em especial das meninges (dura-máter) que são as mais suscetíveis à diminuição da elasticidade (por se tratar de tecido conectivo denso, estrutura fascial);
A avaliação das propriedades do crânio deve ser uma rotina em todos os casos. Seu tratamento, quando necessário, irá contribuir grandemente para vários quadros clínicos, especialmente quando associado ao tratamento de outras possíveis causas.