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ARTIGOVocê trata pacientes com sintomas da coluna vertebral? Então você precisa prestar atenção no sistema neuromeníngeo

02/07/2026

Você trata pacientes com sintomas da coluna vertebral? Então você precisa prestar atenção no sistema neuromeníngeo

Aprender a usar técnicas e recursos para o tratamento das algias vertebrais é importante, e necessário, mas precisam de critério para sua utilização. É indispensável desenvolver o raciocínio clínico para tomar a decisão correta sobre a conduta terapêutica a ser empregada, apenas conhecer as técnicas e tentar utilizá-las sem uma compreensão do problema não vai levar você a bons resultados.

Esse artigo vai conduzir você através de um questionamento crítico para compreender as possíveis raízes dos problemas e tomar decisões terapêuticas de forma consciente e objetiva, contribuindo para melhores resultados nos seus tratamentos.

Algias vertebrais são muito frequentes

Sintomas como lombalgias, cervicalgias, dorsalgias, ciatalgias, cérvico-braquialgias, cefaléias cervicogênicas, e outros relacionados à coluna vertebral estão entre os que mais acometem a população em geral. O número de pessoas que sofre com essas dores, muitas vezes associadas a incapacidades funcionais, é extremamente grande, e os recursos terapêuticos nem sempre são eficazes.

As limitações do tratamento cirúrgico e do tratamento conservador paliativo

A abordagem farmacológica limita-se a efeitos paliativos. A abordagem cirúrgica deve ser reservada para um número pequeno de casos, que possuem indicação clara, caso contrário os resultados são insatisfatórios e não compensam o risco e as consequências da intervenção cirúrgica.

O tratamento fisioterapêutico com recursos antiálgicos também limita-se a efeitos paliativos.

Tratar a causa ou a consequência?

O resultado final que o paciente busca é a restauração da função e a eliminação dos sintomas, mas esses são, na grande maioria das vezes, consequência de um processo disfuncional, adaptativo, que possui uma (ou várias) causa(s).

Investigar a(s) causa(s) e tratá-las parece ser a forma mais eficaz de eliminar as consequências e conseguir a manutenção prolongada do bem estar do paciente, ao invés de resultados temporários.

Abordagem funcional da coluna vertebral 

A abordagem funcional da coluna vertebral mostra-se como a forma mais eficaz de reverter os quadros sintomáticos e devolver a mobilidade e a funcionalidade.

Aqui nos referimos como abordagem funcional aquela voltada para a avaliação da mobilidade da coluna vertebral, dependente da funcionalidade dos elementos que a compõe e se relacionam à ela, e o tratamento voltado para a restauração da função de tais elementos, como forma de devolver o equilíbrio mecânico e fisiológico à coluna vertebral.

Restrições do movimento articular

Em praticamente 100% dos casos de algias vertebrais você encontrará alterações da mobilidade global da coluna vertebral: limitações nos movimentos de flexão, extensão, rotações, inclinações laterais. Os movimentos globais da coluna vertebral são a soma de muitos movimentos menores realizados em cada segmento vertebral. Assim, a limitação de movimento global (muitas vezes determinada pela manifestação da dor) está associada à limitação dos movimentos segmentares intervertebrais.

Aqui entra a categoria dos “bloqueios” articulares segmentares. Trata-se de um fator local.

É fato que você encontrará essas restrições de movimentos vertebrais em pacientes com algias vertebrais, mas a pergunta á ser feita é: isso é a causa dos sintomas ou uma consequência de outro mecanismo?

Você pode tentar resolver o quadro do paciente com técnicas de mobilização e manipulação da coluna vertebral, mas se os “bloqueios” forem apenas consequência os resultados serão limitados, e haverá recidiva.

Sistema miofascial

A pergunta que devemos fazer é: quem é o responsável por instalar e manter os “bloqueios” vertebrais? As vértebras são estruturas ósseas, unidas por elementos articulares cartilaginosos, ligamentares, fasciais, mas seu componente ativo são os músculos.

Músculos são os responsáveis por criar os movimentos da coluna vertebral, também são responsáveis por estabilizá-la durante os movimentos corporais. Podem ser também os responsáveis por evitar o movimento vertebral, ou seja, “bloquear” a mobilidade vertebral.

É também fato que você encontrará um aumento do tônus, espasmo, encurtamento, etc., nos músculos relacionados à coluna vertebral, juntamente com as restrições de movimento vertebral segmentar, nos pacientes com algias vertebrais.

Mas, tratar as estruturas miofasciais seria a solução?

A ação dos músculos tem um porquê

Os músculos são comandados pelo sistema nervoso central. Se você encontra um aumento do tônus muscular isso está acontecendo por um comando do sistema nervoso central, e não por um problema no tecido miofascial (as alterações tissulares podem se instalar se o estado hipertônico se mantém ao longo do tempo, mas é necessário um comando do sistema nervoso central para dar início ao processo de restrição).

Aqui a pergunta que devemos fazer é: porque o sistema nervoso central escolheu aumentar o tônus daquela musculatura (e muitas vezes diminuir o tônus de outra musculatura, concomitantemente) e restringir a mobilidade vertebral?

Se não houver uma necessidade, o sistema nervoso central não irá alterar o tônus muscular e, consequentemente, restringir a mobilidade, pois isso certamente vai alterar o equilíbrio corporal. A função primeira do sistema nervoso central é manter o estado de equilíbrio do organismo, ele não agiria alterando esse equilíbrio sem um bom motivo.

Reação de proteção

Uma hipótese muito provável é a de que o sistema nervoso central aumenta o tônus de determinados músculos, e diminui o tônus de outros, alterando a mobilidade e restringindo o movimento, quando ele está tentando proteger uma estrutura sensível que está sendo agredida.

É muito provável que as alterações miofasciais que você encontra no paciente podem ser reações de proteção.

Você pode tentar técnicas de liberação miofascial, fortalecimento muscular, e outras, mas se o que está acontecendo é uma reação de proteção a alguma estrutura que está preocupando o sistema nervoso central, seu tratamento irá “enxugar gelo”, pois o sistema nervoso central vai manter a reação de proteção até que a estrutura ofendida que ele está tentando proteger não esteja mais sob estresse.

Mas, afinal, essa restrição miofascial e perda de mobilidade e função da coluna vertebral está protegendo o quê?

Causas viscerais

São muito frequentes. As restrições viscerais causam diversos tipos de desordens, tais como:

  • alteração das tensões fasciais;

  • alteração das pressões intracavitárias;

  • alteração da circulação de fluídos: sangue arterial e venoso, linfa, líquido intersticial;

  • alteração dos gânglios autonômicos intramurais;

  • e outras.

Essas alterações comprometem a fisiologia e exigem uma adaptação. Para alterar as tensões sobre as estruturas viscerais, e minimizar tais disfunções, alterar a mobilidade articular e miofascial é uma estratégia muito frequente, usada pelo sistema nervoso central.

A coluna vertebral, devido ao seu grande número de estruturas e grande capacidade de movimento, oferece muitas possibilidades de adaptação para atender às necessidades mecânicas e fisiológicas do corpo.

É, portanto, comum o sistema nervoso central usar a coluna vertebral como recurso para alterar a mobilidade e proteger a função intracavitária (abdome, pelve, tórax) e visceral.

O tratamento visceral pode ter uma grande contribuição nos casos de algias vertebrais.

Causas vasculares

A circulação de fluídos é indispensável para a saúde celular, a fisiologia não resiste à congestão.

Prejuízos ao sistema circulatório também vão exigir adaptações, tal como acontece com as restrições viscerais. E, novamente, a coluna vertebral oferece muitas possibilidades de adaptação para minimizar os efeitos da perda de eficiência circulatória.

Porém, os prejuízos circulatórios são em grande parte causados por alterações em outras estruturas, como as vísceras, por exemplo. Técnicas para as estruturas vasculares são muito úteis, mas caso haja outra estrutura perturbando a circulação essa terá que ser envolvida no tratamento também.

A coluna vertebral não é oca

É muito comum, principalmente quando se tem uma visão mais “ortopédica” do corpo humano, pensar a coluna vertebral com suas estruturas osteoarticulares e miofasciais, e esquecer do seu conteúdo.

Na verdade, a parte mais importante da coluna vertebral está em seu interior: a coluna vertebral é um canal que, entre muitas funções, serve de proteção para uma estrutura vital, a medula espinhal.

Parte do sistema nervoso central, a medula espinhal dá origem às raízes nervosas e nervos periféricos, envolvidos no comando de inúmeras funções.

A medula espinhal é a víscera da coluna vertebral. Portanto, todo o raciocínio que fizemos sobre as restrições viscerais aplica-se aqui.

O sistema nervoso central se move e se adapta

A medula espinhal alonga e encurta durante os movimentos corporais. A amplitude de movimento do canal vertebral (continente da medula) e da medula espinhal (conteúdo) não são iguais, a amplitude de movimento do canal vertebral é maior. Isso significa que, para acompanhar o movimento do canal vertebral a medula espinhal precisa alongar e aumentar seu comprimento.

E, o mais importante, precisa manter suas funções de controle nervoso enquanto se adapta aos movimentos.

E o sistema neuromeníngeo?

Envolvendo a medula espinhal temos um sistema formado por 3 membranas de tecido conectivo (fáscias): o sistema neuromeníngeo.

Pia-máter e aracnóide são duas dessas membranas, e possuem funções muito importantes.

Mas a dura-máter, a terceira membrana, tem um especial interesse para nossa reflexão por ser uma membrana densa, consistente, com importante papel mecânico. Ou seja, intimamente relacionada à mobilidade.

Um complexo osteo-ligamentar-meníngeo-neural

Por meio do que foi exposto até aqui emerge um convite para enxergar a coluna vertebral de uma forma diferente: não mais como uma estrutura osteoarticular-ligamentar, com elementos miofasciais, mas como um complexo formado por:

  • ossos;

  • articulações;

  • elementos miofasciais.

Mas também:

  • meninges;

  • fluido (líquido céfalo-raquidiano);

  • sistema nervoso (víscera).

Esse novo olhar inclui o conteúdo da coluna vertebral, que, como já foi dito, é seu elemento mais importante.

A dura-máter

Essa membrana de tecido conectivo (fáscia) possui um papel fundamental na dinâmica da medula espinhal, das raízes nervosas e dos nervos periféricos. Consequentemente, tem uma participação central na mecânica da coluna vertebral.

Durante os movimentos do tronco ocorre movimento da coluna vertebral, ou seja, de suas diversas articulações, nos diversos segmentos vertebrais, mobilizando todas as estruturas osteo-ligamentares e miofasciais.

Porém, ocorre também um movimento da dura-máter em relação ao canal vertebral. E ocorre um movimento da medula espinhal em relação à dura-máter. Há aqui uma relação osteo (canal vertebral) - meníngea (principalmente a dura-máter) - medular (víscera). Essa relação precisa ser harmoniosa e equilibrada para que haja um movimento fluído entre todas as camadas, requisito obrigatório para uma mobilidade vertebral completa.

É improvável que a medula espinhal seja a sede da restrição de movimento, caso isso aconteça o mais frequente é o surgimento de um quadro de patologia neurológica, não de algias vertebrais.

Mas a dura-máter é uma membrana de tecido conectivo denso, que é bastante suscetível a adaptações, restrições, perda da extensibilidade e mobilidade.

A dura-máter envolve a medula espinhal e também está “ancorada” à ela, por meio de ligamentos chamados ligamentos denticulados. A alteração da dinâmica da dura-máter, portanto, reflete imediatamente sobre a dinâmica da medula espinhal.

Além disso, a dura-máter também envolve as raízes nervosas, dentro do canal vertebral, formando as chamadas mangas durais. Isso conecta a dinâmica da dura-máter com a dinâmica das raízes nervosas e, por consequência, dos nervos periféricos.

Para completar, a dura-máter é uma membrana multi-inervada, extremamente sensível, que recebe fibras nervosas de todos os segmentos medulares, através dos chamados nervos sinuvertebrais.

Vemos aqui que a dura-máter tem um papel central na dinâmica do complexo neuro-meníngeo, e representa a interface com o sistema osteo-ligamentar (canal vertebral), constituindo-se em um elemento fundamental para a mecânica da coluna vertebral. Fica claro a sua importância e envolvimento nos quadros de restrição de mobilidade e algias da coluna vertebral.

Voltando à reação de proteção

Como já refletimos antes, muitas restrições que encontramos no sistema osteoarticular e miofascial são reações de proteção para agressões que ocorrem em estruturas sensíveis.

E também já vimos que a coluna vertebral oferece vários recursos adaptativos para essa reação de proteção.

Nada mais óbvio que as restrições da coluna vertebral servirem como estratégia de proteção para as restrições do conteúdo do canal vertebral: o sistema neuromeníngeo.

Concluindo, as alterações de mobilidade e restrições que observamos nos sistemas osteoarticular e miofascial dos pacientes com algias vertebrais são, em grande parte, consequência de alterações no sistema neuromeníngeo.

É, portanto, obrigatório, no mínimo, avaliar a dinâmica neuromeníngea em todos os pacientes que apresentam quadros sintomáticos relacionados à coluna vertebral. Negligenciar esse sistema vital para o equilíbrio do eixo central do corpo (core link, nas palavras do Dr. Sutherland), pode ser a causa de resultados limitados nos tratamentos, e recidivas. Incluir a investigação do sistema neuromeníngeo em todos os pacientes que apresentam disfunções vertebrais vai tornar os tratamentos mais globais, integrativos e focados na etiologia do problema, evitando abordagens sintomáticas paliativas.

O tratamento neuromeníngeo sozinho é suficiente para resolver as algias vertebrais?

Não, como vimos, existem outras causas muito importantes de adaptação vertebral, como as causas viscerais e vasculares, que também precisam ser investigadas.

Além disso, mesmo que as restrições osteoarticulares e miofasciais sejam consequência das alterações neuromeníngeas, não significa que, eliminando as causas neuromeníngeas as estruturas osteoarticulares e miofasciais irão recuperar sua fisiologia rápida e naturalmente. 

Muitas vezes será necessário, após a resolução das causas neuromeníngeas, utilizar técnicas articulares, miofasciais, fortalecimento muscular, técnicas de reeducação postural, e outras. Mas, uma vez eliminadas as causas principais, essas técnicas se mostrarão eficazes, caso contrário seus benefícios serão limitados e as recidivas frequentes.

Inclua o raciocínio investigativo das causas dos problemas na avaliação e tratamento dos seus pacientes e, em especial em paciente com queixas relacionadas à coluna vertebral, não negligencie o sistema neuromeníngeo.

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